Dentro de toda a classe dos mamíferos, o cão é a espécie que possui maior variabilidade racial.1

Esta grande variação revela diferenças significativas não só fenotípica (peso, tamanho, formato do crânio, boca e tubo digestivo),2 mas também funcionais, pontos de corte etários, incidência de doenças, etc. Em virtude desta enormidade de diferenças foi necessário agrupar os cães de acordo com alguns critérios, tais como aptidões, peso do cão quando adulto e o seu tamanho, assim foi criada a classificação por portes.1,3,4

Portes dos cães

Existem diversas classificações atualmente aceitas, todas embasadas em pesquisas, contudo, não há uma classificação única. Aqui é adotado o sistema de classificação pelo “peso padrão da raça na idade adulta”:

Toy - cão adulto, eutrófico, até 4 Kg

Pequeno - cão adulto, eutróficos, de 5 Kg até 10 Kg

Médio - cão adulto, eutrófico de 11 Kg até 25 Kg

Grande - cão adulto, eutrófico de 26 Kg até 50 Kg

Gigante - cão adulto, eutrófico, maior que 50 Kg.

Esta classificação permite agrupar os cães conforme características comuns não só ao peso corporal, mas também com funções orgânicas similares, que são de grande valia para uma nutrição adequada, abaixo serão descritas diversas diferenças que influenciam na nutrição do cão.1,5

- Necessidades energéticas

Para se calcular a quantidade de energia necessária para a manutenção de um cão adulto e em condições normais, usa-se a formula matemática 132 Kcal x Peso vivo 0,75.6

Com base nesta formula, pode se comparar as quantidades necessárias de energia por dia entre dois cães de portes diferentes. Usando como base para a comparação um cão da raça Chihuahua, cujo peso corporal é de 2 Kg (toy), onde sua necessidade calórica é de 221 Kcal / dia, e um cão da raça Rottweiler, cujo peso corporal é de 45 Kg (grande) e sua necessidade calórica é de 2.293 Kcal / dia.

Em uma comparação direta entre os valores absolutos, o cão de 45 Kg necessita cerca de 10 vezes mais energia ao dia do que o cão de 2 Kg, entretanto, se a comparação da quantidade necessária de energia for de modo relativo, ou seja, quantas calorias são necessárias para cada quilo de peso vivo, este panorama muda por completo, assim, o cão de 2 Kg precisa de aproximadamente 111 Kcal para manter cada quilo do seu corpo, enquanto que o cão de 45 Kg precisa de apenas 50,9 Kcal para manter cada quilo do seu peso vivo, sendo assim, pode se dizer que o cão de 2 Kg precisa de mais do que o dobro da energia do que o cão de 45 Kg para se manter, donde se conclui, que os cães toy e de pequeno porte precisam mais do que o dobro da energia por quilo para se manter em comparação os cães de porte grande e gigante, levando por terra o conceite de consumo com base de um percentual do peso corporal (de 10% a 15% do seu peso). Um jeito fácil e prático para entender esta afirmação é comparar quantos passos os cães os dois terão que dar para se deslocar a mesma distância.

A principal consequência desta diferença consiste na inobservância das reais necessidades calóricas de ada cão. Muitas vezes a superestimação dos tutores quanto a quantidades de alimentos ofertados aos cães o leva a desenvolver a obesidade ou a subestimação gera o risco de desnutrição.

Este impacto é muito mais significativo quanto menor for o cão. Usando como base o exemplo acima, do cão de 2 Kg, que precisa de 221 Kcal / dia e do cão de 45 Kg que precisa de 2.293 Kcal /dia, se ambos receberem uma dieta com cerca de 3.000 Kcal / Kg, o cão de 2 Kg precisará comer cerca de 73 g / dia desta dieta e o cão de 45 Kg precisará de 764 g / dia. Supondo que o tutor erre em 10 g para mais, ou seja, 30 Kcal a mais, nos 2 cães, no cão de 2 Kg esse erro representa um acréscimo de mais de 10% quantidade de energia diária fornecida, enquanto que no de 45 Kg é de o acréscimo é de pouco mais de 1% sobre a energia ofertada.

Estas 10 g que correspondem a 30 Kcal, consumidas em um mês gera um acumula de 900 Kcal e se for projetado para 1 ano dará um adicional de 10.950 Kg a mais. Usando uma correlação com a espécie humana, que para formar 1 Kg gordura corporal são necessários 7.700 Kcal, no exemplo acima o cão de 2 Kg ganharia ao término de 1 ano cerca de 1,4 Kg de peso em gordura, ou seja, 71% a mais de peso.

- Representatividade do peso do tubo digestiva no corpo

Os cães menores têm, proporcionalmente ao seu peso, o dobro do volume do tubo digestivo do que os cães maiores.

Ao comparar o peso do tubo digestivo dos cães (do esôfago ao ânus) observa-se uma enorme variação dentro da espécie, para uma melhor compreensão, basta comparar peso do tubo digestivo de um Shih Tzu, cujo peso médio da raça é em torno 6 Kg, e seu tubo digestivo pesa algo em torno de 400 g a 450 g, isto quer dizer que 7% a 7,5% do seu peso corresponde ao seu tubo digestivo enquanto em um cão da raça São Bernardo, cujo peso médio de 75 Kg, o peso do tubo digestivo varia entre 2 Kg a 3 Kg, o que representa algo em torno de 2,5% a 3,0% do se peso corporal.1,6

- Tempo de passagem do alimento pelo tubo digestivo versus eficiência digestiva

Nos cães menores o alimento passa 2 vezes mais rápido, têm maior risco a alergias alimentares e produzem fezes menores, mais secas e mais fétidas.

Dentre todos os fatores que afetam a motilidade gastrintestinal, a dieta é a que tem maior influência. Apesar dos cães menores (toy e pequeno) terem proporcionalmente ao seu próprio peso, o dobro tamanho do tubo digestivo quando comparado aos cães maiores (grandes e gigantes),o seu tempo de passagem do alimento pelo trato digestivo é a metade do tempo levado pelo trato digestivo dos cães maiores.7

Ou seja, se todos os cães forem alimentados com a mesma dieta, resguardadas as suas necessidades calóricas, os cães menores eliminarão os resíduos da digestão (fezes) desta dieta entorno de 12 a 24 horas (frequência normal de 1 a 2 episódios diários) enquanto os maiores de 24 a 55 horas.5,7,8

O tempo de passagem do alimento é diferente para cada compartimento do tubo digestivo (estômago, intestino delgado e cólons) de acordo com o porte.9

O tempo de permanecia do alimento no estômago é maior nos cães maiores em comparação com a permanência nos menores,7,9 isto facilita a digestão e posterior absorção das proteínas e gorduras, as quais dependem do tempo exposição ácido clorídrico e enzimas proteolíticas (quebram proteínas) e lipolíticas (quebram gorduras) do estômago,10,11 diminuindo passagem de proteínas maiores para o intestino delgado, o que aumenta o risco para alergias alimentares e fezes mais fétidas, assim como facilita a absorção das gorduras.

Com relação ao tempo de permanência do alimento no intestino delgado não há diferença absoluta de tempo, entretanto, uma análise de relativa, mostra que, proporcionalmente ao tempo total de passagem do alimento pelo tubo digestivo, o alimento permanece mais tempo no intestino delgado dos cães menores, permitindo uma exposição maior dos alimentos as enzimas intestinais, pancreáticas e a bile, facilitando não só a digestão mas também a absorção da maior parte dos nutrientes presentes na dieta.1,7

O alimento fica cerca de 80% a 90% do seu tempo total de passagem pelo tubo digestivo no intestino grosso (cólons) no caso dos cães grandes, contra apenas 40% em cães pequenos, tal fato, favorece a uma maior fermentação bacteriana intestinal que supera a capacidade do intestino grosso de absorve os produtos gerados por esta fermentação fazendo com que as fezes fiquem mais hidratadas e volumosas.7,8,12

Um desequilíbrio na concentração e composição das fibras da dieta (solúveis – absorvem água, são fermentáveis, funcionam como pré-bióticos e ajudam a desacelerar a motilidade intestinal; e insolúveis – formadoras de bolo fecal, aceleram a motilidade 12), pode promover uma diarreia (cães maiores) ou constipação (cães menores) 1,13.

Referências Bibliográficas

1. Weber MP, Biourge VC, Nguyen PG. Digestive sensitivity varies according to size of dogs: a review. J Anim Physiol Anim Nutr (Berl). 2017;101(1):1–9.

2. Wayne RK, Vilà C. Phylogeny and Origin of the Domestic Dog. Genet Dog. 2001;(March):1–14.

3. Sundqvist A. Conservation genetics of wolves and their relationship with dogs. 2008. 47 p.

4. Fédération Cynologique Internationale - FCI. Breeds [Internet]. 2018. Recuperado de: http://www.fci.be/en/Nomenclature/Default.aspx

5. Royal Canin. Enciclopédia do Cão. Paris: Aniwa; 2001. 635 p.

6. National Research Council. Nutrient requirements of dogs and cats. Wasington DC: National Academies Press; 2006. 398 p.

7. Hernot DC, Biourge VC, Martin LJ, Dumon HJ, Nguyen PG. Relationship between total transit time and faecal quality in adult dogs differing in body size. J Anim Physiol Anim Nutr (Berl). 2005;89(3–6):189–93.

8. Camilleri M, Linden DR. Measurement of Gastrointestinal and Colonic Motor Functions in Humans and Animals. Cmgh [Internet]. Elsevier Inc; 2016;2(4):412–28. Recuperado de: http://dx.doi.org/10.1016/j.jcmgh.2016.04.003

9. Bourreau J, Hernot D, Bailhache E, Weber M, Ferchaud V, Biourge V, et al. Gastric Emptying Rate Is Inversely Related to Body Weight in Dog Breeds of Different Sizes. In: WALTHAM International Science Symposium. 2004. p. 2039S–2041S.

10. Motta VT. Aminoácidos e prote\’{\i}nas. V.

11. Motta VT. Lípidos, lipoproteínas e apoproteínas. Bioquímica Clínica Princípios e Interpret [Internet]. 2009;10:120–42. Recuperado de: http://www.labclinisul.com.br/artigos/Bioq.Clinica - Lipidios, Lipoproteinas.pdf

12. Brunes LC, Couto VRM. Amido resistente, um potencial ingrediente para ser considerado em alimentos funcionais para cães. Arch Zootec [Internet]. 2017;66(254):287–99. Recuperado de: http://www.uco.es/ucopress/az/index.php/az/article/view/2334/1547

13. Ramos TA. Ensaio de Digestibilidade em Cães: Em Período de Adaptação e Enriquecimento Ambiental. Universidade Federal do Paraná; 2016.